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02/08/2026

OS BENS MESSINICOS

TEMPO COMUM. DÉCIMO OITAVO DOMINGO. CICLO A

I. Multiplicação dos pães. Jesus cuida daqueles que o seguem.

DESTE‑NOS, SENHOR, o pão do céu, que encerra em si todas as delícias [1] . O Evangelho da Missa [2] conta‑nos que o Senhor se meteu sozinho numa barca e se afastou para um lugar solitário. Mas muitos souberam para onde ia e seguiram‑no a pé. Ao desembarcar, o Senhor viu a multidão que o procurava e encheu‑se de compaixão por ela e curou os enfermos . Cura‑os sem que lho peçam, porque, para muitos, chegar àquele lugar levando até doentes impossibilitados de andar, era já suficiente expressão de uma fé grande. São Marcos [3] diz‑nos que Jesus se deteve longamente doutrinando essa multidão que o seguia, porque estavam como ovelhas sem pastor , cheios de confiança nEle. O Senhor não viu passar o tempo, absorvido em ensinar e atender a todos, e os discípulos, não sem certa inquietação, sentiram‑se levados a intervir, porque já era avançada a hora e o lugar era deserto: Despede essa gente para que, indo às aldeias, compre de comer , dizem‑lhe. Mas Jesus surpreende‑os com a sua resposta: Não têm necessidade de ir; dai‑lhes vós de comer . E os Apóstolos fazem o que podem: conseguem cinco pães e dois peixes. É de notar que eram cinco mil homens, sem contar as mulheres e crianças . Jesus realizará um milagre portentoso com esses poucos pães e peixes, e com a obediência daqueles que o seguiam. Depois de mandar que se sentassem na relva, Jesus, tomando os cinco pães e os dois peixes, levantando os olhos ao céu, pronunciou a bênção e, partindo os pães, deu‑os aos discípulos, e os discípulos às turbas . Todos comeram até ficarem saciados. O Senhor cuida dos seus, dos que o seguem, mesmo nas necessidades materiais quando é necessário, mas procura a nossa colaboração, que sempre é pequena. “Se o ajudares, mesmo que seja com uma ninharia, como fizeram os Apóstolos, Ele estará disposto a realizar milagres, a multiplicar os pães, a mudar as vontades, a dar luz às inteligências mais obscurecidas, a fazer – mediante uma graça extraordinária – que sejam capazes de retidão os que nunca o foram. – Tudo isto… e mais, se o ajudares com o que tens” [4] . Então compreenderemos melhor o que São Paulo nos diz na segunda Leitura: Quem nos separará, pois, do amor de Cristo? A tribulação, a angústia, a fome, a nudez, o perigo, a perseguição, a espada? […]. De todas estas coisas saímos vencedores por aquele que nos amou. Porque estou certo de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as virtudes, nem as coisas presentes, nem as futuras, nem a força, nem a altura, nem a profundidade, nem outra criatura alguma nos poderá separar do amor de Deus que está em Jesus Cristo Nosso Senhor [5] . Em Cristo encontramos sempre a nossa fortaleza.

II. Este milagre é, além disso, figura da Sagrada Eucaristia, em que o Senhor se dá como alimento.

O RELATO DO MILAGRE começa com as mesmas palavras e descreve os mesmos gestos com que os Evangelhos e São Paulo nos transmitem a instituição da Eucaristia [6] . Semelhante coincidência faz‑nos ver [7] que esse milagre, além de ser uma manifestação da misericórdia divina de Jesus para com os necessitados, era figura da Sagrada Eucaristia, da qual o Senhor falaria pouco depois, na sinagoga de Cafarnaum [8] . Assim o interpretaram muitos Padres da Igreja. O próprio gesto do Senhor ao levantar os olhos para o céu é recordado pela liturgia no Cânon Romano da Santa Missa: Et elevatis oculis in caelum, ad Te Deum Patrem suum omnipotentem … Ao recordá‑lo, preparamo‑nos para assistir a um milagre muito maior que o da multiplicação dos pães: a conversão do pão no próprio Corpo de Cristo, que é oferecido sem medida como alimento a todos os homens. O milagre daquela tarde junto do lago manifestou o poder e o amor de Jesus pelos homens. Poder e amor que hão de possibilitar também, ao longo da história, que o Corpo de Cristo seja encontrado, sob as espécies sacramentais, pelas multidões dos fiéis que o procurarão famintas e necessitadas de consolo. Como diz São Tomás no hino que compôs para a Missa do Corpus Christi: sumit unus, sumunt mille…, tomam‑no um, tomam‑no mil, tomam‑no este ou aquele, mas não se esgota quando o tomam… “O milagre da multiplicação dos pães adquire assim todo o seu significado, sem perder nada da sua realidade. É grande em si mesmo, mas torna‑se ainda maior pelo que promete: evoca a imagem do bom pastor que alimenta o seu rebanho. Dir‑se‑ia que é como um ensaio de uma nova ordem. Multidões inteiras virão tomar parte no festim eucarístico, onde serão alimentadas de uma maneira muito mais milagrosa, com um manjar infinitamente superior” [9] . Esta multidão que se prende ao Senhor revela a forte impressão que a sua Pessoa produzia no povo, pois são tantos os que se dispõem a segui‑lo até paragens desérticas, a uma grande distância das vias mais transitadas e das aldeias. Vão sem provisões, não querem perder tempo em procurá‑las, pelo receio de perderem de vista o Senhor. Um bom exemplo para quando tivermos alguma dificuldade em visitá‑lo ou recebê‑lo. Para encontrar o Mestre, vale a pena qualquer sacrifício. São João indica‑nos que o milagre causou um grande entusiasmo naquela multidão que se tinha saciado [10] . “Senhor, se aqueles homens, por um pedaço de pão – embora o milagre da multiplicação tenha sido muito grande –, se entusiasmam e te aclamam, que não deveremos nós fazer pelos muitos dons que nos concedeste, e especialmente porque te entregas a nós sem reservas na Eucaristia?” [11] Na Comunhão, recebemos Jesus, Filho de Maria, que naquela tarde realizou o grandioso milagre. “Na Hóstia, possuímos o Cristo de todos os mistérios da Redenção: o Cristo de Maria Madalena, do filho pródigo e da Samaritana, o Cristo ressuscitado dos mortos, sentado à direita do Pai […]. Esta maravilhosa presença de Cristo no meio de nós deveria revolucionar a nossa vida […]; Ele está aqui, conosco: em cada cidade, em cada povoado […]” [12] . Espera‑nos e sente a nossa falta quando nos atrasamos.

III. Procurar o Senhor na Comunhão como aquelas multidões que se esqueciam até do indispensável para não o perderem. Preparar cada comunhão como se fosse a única da nossa vida.

OS OLHOS DE TODOS esperam em Ti, Senhor, / e tu lhes dás o sustento no tempo oportuno; / Tu abres as mãos e sacias com benevolência todos os viventes , podemos ler no Salmo responsorial [13] . Jesus, realmente presente na Sagrada Eucaristia, dá a este sacramento uma eficácia sobrenatural infinita. Nós, quando desejamos expressar o nosso amor a uma pessoa, damos‑lhe algum objeto, fazemos‑lhe um favor ou prestamos‑lhe ajuda, procuramos estar atentos à pessoa amada…, mas sempre deparamos com um limite: não podemos dar‑nos nós mesmos. Jesus Cristo, pelo contrário, pode: dá‑se Ele mesmo, unindo‑nos a Ele, identificando‑nos com Ele. E nós, que o procuramos com maiores desejos e maiores necessidades que aquelas pessoas que até se esqueceram da comida para não o perderem, encontramo‑lo diariamente na Sagrada Comunhão. Ele nos espera a cada um. Não fica na expectativa de que lhe peçamos alguma coisa: antecipa‑se e cura‑nos das nossas fraquezas, protege‑nos contra os perigos, contra as vacilações que pretendem separar‑nos dEle, e dá vida ao nosso caminhar. Cada Comunhão é uma fonte de graças, uma nova luz e um novo impulso que, às vezes sem o notarmos, nos dá fortaleza para enfrentarmos com garbo humano e sobrenatural a vida diária, a fim de que os nossos afazeres nos levem até Ele. A participação destes benefícios depende, no entanto, da qualidade das nossas disposições interiores, porque os sacramentos “produzem um efeito tanto maior quanto mais perfeitas forem as disposições de quem os recebe” [14] . Disposições habituais da alma e do corpo, desejos cada vez maiores de limpeza e de purificação, que nos farão recorrer à Confissão com uma periodicidade certa, ou antes se for necessário ou conveniente. “A piedade eucarística – diz João Paulo II – aproximar‑vos‑á cada vez mais do Senhor; e pedir‑vos‑á o oportuno recurso à Confissão sacramental, que leva à Eucaristia, como a Eucaristia leva à Confissão” [15] . Quanto mais se aproxima o momento de comungar, mais vivo se deve fazer o desejo de preparação, de fé e de amor. “Pensaste alguma vez como te prepararias para receber o Senhor, se apenas se pudesse comungar uma vez na vida? – Agradeçamos a Deus a facilidade que temos para nos aproximarmos dEle, mas… temos de agradecer preparando‑nos muito bem para recebê‑lo” [16] , como se fosse a única Comunhão de toda a nossa vida, como se fosse a última. Um dia será a última, e pouco depois nos encontraremos cara a cara com Jesus, com quem estivemos tão intimamente no sacramento. Como nos hão de alegrar então as mostras de fé e de amor que lhe tivermos manifestado! Aos que alimentastes com este Pão do céu, Senhor, protegei‑os com o vosso auxílio e concedei‑lhes que alcancem a redenção eterna , pedimos com a liturgia da Missa [17] .

Referências citadas

  • 1. Is 55, 1‑3
  • 2. Mt 14, 13‑21
  • 3. Mc 6, 33‑34
  • 4. Josemaría Escrivá, Forja , n. 675
  • 5. Rom 8, 35; 37‑39
  • 6. cfr. Mt 26, 26; Mc 14, 22; Lc 22, 19; 1 Cor 11, 25
  • 7. cfr. Sagrada Bíblia, Santos Evangelhos , nota a Jo 6, 11 e Mc 6, 41
  • 8. cfr. Jo 6, 26‑59
  • 9. M. J. Indart, Jesus en su mundo , Herder, Barcelona, 1963, págs. 265‑266
  • 10. Jo 6, 14
  • 11. Josemaría Escrivá, op. cit. , n. 304
  • 12. M. M. Philipon, Os sacramentos da vida cristã
  • 13. Sl 144, 15‑16
  • 14. São Pio X, Decr. Sacra Tridentina Synodus , 20‑XII‑1905
  • 15. João Paulo II, Alocução , 31‑X‑1982
  • 16. Josemaría Escrivá, op. cit. , n. 828
  • 17. Oração para depois da Comunhão.