Falar com Deus

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04/10/2026

NA VINHA DO AMADO

TEMPO COMUM. VIGÉSIMO SÉTIMO DOMINGO. CICLO A

I. Parábola da vinha.

A LITURGIA DA MISSA , através de uma das mais belas alegorias, fala-nos do amor de Deus pelo seu povo e da falta de correspondência a esse amor. Na primeira Leitura [1] , lemos a chamada canção da vinha , que descreve Israel como uma plantação de Deus, tratada com todos os cuidados possíveis. Cantarei ao meu amado o cântico da vinha dos seus amores. O meu amado adquiriu uma vinha numa colina fertilíssima. Cavou-a, tirou dela as pedras e plantou-a com vides escolhidas. Edificou no meio dela uma torre e construiu um lagar. E esperava que desse boas uvas, mas produziu agraços . Situada no melhor lugar, rodeada solicitamente dos melhores cuidados, era lógico que essa vinha desse bons frutos, mas produziu uvas amargas. Agora, pois, habitantes de Jerusalém e homens de Judá – continua o Profeta –, sede vós os juízes entre mim e a minha vinha. Que há que eu devesse fazer pela minha vinha que não o tivesse feito? Como é que, esperando que desse boas uvas, produziu agraços? A Palestina era um lugar rico em vinhedos, e os Profetas do Antigo Testamento recorreram com freqüência a essa imagem, tão conhecida por todos, para falar do Povo eleito. Israel era a vinha de Deus, a obra do Senhor, a alegria do seu coração [2] : Eu tinha-te plantado como uma vinha escolhida, com sarmentos de boa qualidade [3] . A tua mãe era como uma vinha plantada junto das águas [4] … O próprio Senhor, como se lê no Evangelho da Missa [5] , referindo-se ao texto de Isaías, revela-nos a paciência de Deus, que manda os seus mensageiros – os Profetas do Antigo Testamento –, um após outro, em busca de frutos. Por fim, envia o seu Filho amado , o próprio Jesus, que os vinhateiros acabarão por matar: E, lançando-lhe as mãos, puseram-no fora da vinha e mataram-no . É uma referência clara à crucifixão, que teve lugar fora dos muros de Jerusalém. A vinha é certamente Israel, que não correspondeu aos cuidados divinos; mas é também a Igreja, bem como cada um de nós: “Cristo é a verdadeira vide, que dá vida e fecundidade aos ramos, quer dizer, a nós que pela Igreja permanecemos nEle e sem Ele nada podemos fazer (Jo 15, 1-5)” [6] . Meditemos hoje se o Senhor pode encontrar frutos abundantes na nossa vida; abundantes porque é muito o que nos foi dado. Frutos de caridade, de trabalho bem feito, de apostolado com os amigos e familiares; jaculatórias, atos de amor a Deus e de desagravo ao longo do dia, ações de graças, contrariedades acolhidas com paz, pequenos sacrifícios praticados discretamente e com toda a naturalidade. Examinemos também se, ao mesmo tempo, não produzimos essas uvas amargas que são os pecados, a tibieza, a mediocridade espiritual, as faltas de que não pedimos perdão ao Senhor…

II. Os frutos amargos.

HAVIA UM PAI de família que plantou uma vinha, cercou-a com uma sebe e cavou nela um lagar… “Cercou-a com uma sebe – comenta Santo Ambrósio –, isto é, defendeu-a com a muralha da proteção divina para que não sofresse facilmente pelas incursões das alimárias espirituais […]; e cavou um lagar onde fluísse, espiritualmente, o fruto da uva divina” [7] . Foram muitos os cuidados divinos que recebemos. A cerca , o lagar e a torre significam que Deus não economizou nada para cultivar e embelezar a sua vinha. Como é que, esperando que desse boas uvas, produziu agraços? O pecado é o fruto amargo das nossas vidas. A experiência das fraquezas pessoais ressalta com demasiada evidência na história da humanidade e na de cada homem. “Ninguém se vê inteiramente livre da sua fraqueza, solidão ou servidão. Antes pelo contrário, todos precisam de Cristo modelo, mestre, libertador, salvador e vivificador” [8] . Os nossos pecados estão intimamente relacionados com essa morte do Filho amado , de Jesus. E, lançando-lhe as mãos, puseram-no fora da vinha e mataram-no . Para produzirmos os frutos de vida que Deus espera diariamente de cada um de nós, temos em primeiro lugar de pedir ao Senhor e fomentar uma santa aversão por todas as faltas – mesmo veniais – que ofendem a Deus. Os descuidos na caridade, os juízos negativos sobre esta ou aquela pessoa, as impaciências, os agravos não esquecidos, a dispersão dos sentidos internos e externos, o trabalho mal feito…, “fazem muito mal à alma. – Por isso, «capite nobis vulpes parvulas, quae demoliuntur vineas», diz o Senhor no « Cântico dos Cânticos»: caçai as pequenas raposas que destroem a vinha” [9] . É necessário que nos empenhemos continuamente em afastar tudo aquilo que não é grato ao Senhor. A alma que detesta o pecado venial deliberado, pouco a pouco vai crescendo em delicadeza e em finura no trato com o Mestre. As fraquezas devem ajudar-nos a multiplicar os atos de reparação e de desagravo, e a tornar sempre mais viva e sincera a contrição por essas faltas. Se pedimos perdão a uma pessoa querida quando a ofendemos, e procuramos compensá-la com algum ato bom, com quanto mais razão não devemos fazê-lo quando o ofendido é Jesus, o Amigo de verdade! Então Ele nos sorri e devolve a paz às nossas almas. Convertemos assim em frutos esplêndidos o que estava perdido. “Pede ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo, e à tua Mãe, que te façam conhecer-te e chorar por esse montão de coisas sujas que passaram por ti, deixando – ai! – tanto resíduo… “E ao mesmo tempo, sem quereres afastar-te dessa consideração, diz-Lhe: – Dá-me, Jesus, um Amor qual fogueira de purificação, onde a minha pobre carne, o meu pobre coração, a minha pobre alma, o meu pobre corpo se consumam, limpando-se de todas as misérias terrenas… E, já vazio todo o meu eu, enche-o de Ti: que não me apegue a nada daqui de baixo; que sempre me sustente o Amor” [10] .

III. Os frutos que Deus espera.

NA SEGUNDA LEITURA [11] , lemos estas palavras de São Paulo aos cristãos de Filipos: Quanto ao mais, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é santo, tudo o que é amável, tudo o que é de bom nome, qualquer virtude, qualquer coisa digna do louvor da disciplina, seja isso o objeto dos vossos pensamentos . As realidades terrenas e as coisas nobres deste mundo são boas e podem chegar a ter um valor divino. Pois, como escrevia Santo Irineu, “pelo Verbo de Deus, tudo está sob a influência da obra redentora, e o Filho de Deus foi crucificado por todos, e traçou o sinal da Cruz sobre todas as coisas” [12] . Devemos converter em frutos para Deus todos os assuntos que trazemos diariamente entre mãos (o trabalho, a família, a amizade, as preocupações que a vida ocasiona, as pequenas alegrias diárias…), pois “não se pode dizer que haja realidades – boas, nobres ou mesmo indiferentes – que sejam exclusivamente profanas, uma vez que o Verbo de Deus estabeleceu a sua morada entre os filhos dos homens, teve fome e sede, trabalhou com as suas mãos, conheceu a amizade e a obediência, experimentou a dor e a morte” [13] . Todas as coisas humanas nobres podem ser santificadas e oferecidas a Deus. Cada jornada apresenta-se com incontáveis possibilidades de oferecer frutos agradáveis ao Senhor: desde a primeira vitória contra a preguiça ao levantar-nos pontualmente – o minuto heróico –, até esse pequeno sacrifício que supõe enfrentar com bom ânimo o excesso de trânsito ou um ligeiro mal-estar que nos deixa indispostos. São muitas, neste dia irrepetível, as ocasiões de sorrir, de ter uma palavra amável, de desculpar um erro… No trabalho, o Senhor espera esses pequenos frutos que nascem quando nos esforçamos por executá-lo bem: a pontualidade, a ordem, a intensidade, o cumprimento dos prazos… Para produzirmos esses frutos, temos de empenhar-nos em manter a presença de Deus ao longo do dia, com jaculatórias, com atos de amor…, com um olhar dirigido a uma imagem da Virgem ou ao crucifixo…, lembrando-nos do Sacrário mais próximo do lugar em que estamos… Aquele que permanece em mim e eu nele, esse dá muito fruto, porque, sem mim, nada podeis fazer… Nisto é glorificado meu Pai, em que deis muito fruto e sejais meus discípulos [14] . A nossa Mãe Santa Maria há de ensinar-nos a viver cada dia com a urgência de dar muitos frutos a Deus, e a evitar decididamente que cresçam em nossa vida os frutos amargos.

Referências citadas

  • 1. Is 5, 1-7
  • 2. cfr. João Paulo II, Exortação Apostólica Christifideles laici , 30.12.88, 8
  • 3. Jer 2, 21
  • 4. Ez 19, 10
  • 5. Mt 21, 33-43
  • 6. Concílio Vaticano II, Constituição Lumen gentium , 6
  • 7. Santo Ambrósio, Comentário ao Evangelho de São Lucas , 20, 9
  • 8. Concílio Vaticano II, Decreto Ad gentes , 8
  • 9. Bem-aventurado Josemaría Escrivá, Caminho , n. 329
  • 10. Bem-aventurado Josemaría Escrivá, Forja , n. 41
  • 11. Fil 4, 6-9
  • 12. Santo Irineu, Demonstração da pregação apostólica
  • 13. Bem-aventurado Josemaría Escrivá, É Cristo que passa , n. 112
  • 14. Jo 15, 5-8.