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06/07/2026

ENCONTRAR CRISTO NA IGREJA

14ª Semana. Segunda-feira

I. Não é possível amar, seguir ou ouvir Cristo, sem amar, seguir ou ouvir a Igreja.

Todos procuram Jesus. Todos necessitam dele, e Ele está sempre disposto a compadecer‑se de quantos se lhe aproximam com fé. Sua Santíssima Humanidade era como o canal por onde corriam todas as graças, enquanto permanecesse entre os homens. Por isso, toda a multidão tentava tocá‑lo, porque dele saía uma força que curava a todos. A mulher de que fala o Evangelho da Missa [1] também se sentiu movida a aproximar‑se de Cristo. Aos seus sofrimentos físicos — já doze anos — somava‑se a vergonha de se sentir impura segundo a Lei. No povo judeu considerava‑se impura não somente a mulher afetada por uma enfermidade desse tipo, mas tudo quanto ela tocasse. Por isso, para não ser notada pelo povo, aproximou‑se de Jesus por trás e tocou apenas seu manto. «Tocou delicadamente a orla do manto, aproximou‑se com fé, creu e soube que havia sido curada...» [2] Essas curas, os milagres, as expulsões dos demônios que Cristo realizou enquanto viveu na terra, eram prova de que a Redenção já era uma realidade, não uma mera esperança. Essas pessoas que se aproximam do Mestre são como um prenúncio da devoção dos cristãos à Santíssima Humanidade de Cristo. Depois, quando estava próximo de partir para o Céu, junto do Pai, sabendo que sempre andaríamos necessitados dele, dispôs os meios para que, em qualquer tempo e lugar, pudéssemos receber a infinita riqueza da Redenção: fundou a Igreja, bem visível e localizável. Com ela sucede algo parecido ao que buscavam aquelas gentes no Filho de Maria. Estar na Igreja é estar com Jesus, unir‑se a este redil é unir‑se a Jesus, pertencer a essa sociedade é ser membro de seu Corpo. Só nela encontramos a Cristo, o mesmo Cristo, aquele que esperava o povo escolhido. Aqueles que pretendem ir a Cristo deixando de lado Sua Igreja, ou mesmo maltratando‑a, poderiam um dia levar a mesma surpresa de São Paulo no caminho de Damasco: Eu sou Jesus, a quem tu persegues [3] . E «não diz — ressalta São Beda —: por que persegues os meus membros?, mas por que me persegues?, porque Ele ainda padece afrontas em seu Corpo, que é a Igreja» [4] . Paulo não soube até então que perseguir a Igreja era perseguir o próprio Jesus. Mais tarde, quando falar dela, o fará descrevendo‑a como o Corpo de Cristo [5] , ou simplesmente como Cristo [6] ; e aos fiéis como seus membros [7] . Não é possível amar, seguir ou ouvir Cristo, sem amar, seguir ou ouvir a Igreja, porque Ela é a presença, sacramental e misteriosa a um só tempo, de Nosso Senhor, que prolonga sua missão salvífica no mundo até o fim dos tempos.

II. Nela, participamos da Vida de Cristo.

Ninguém pode dizer que ama a Deus se não escolhe o caminho — Jesus — estabelecido pelo próprio Deus: "Este é o meu Filho amado (...); escutai‑O" [8]. E é ilógica a pretensão de ser amigos de Cristo desprezando a Sua palavra e os Seus desígnios. Aquelas gentes que vêm de toda parte encontram em Jesus alguém que, com autoridade, lhes fala de Deus — Ele mesmo é a Palavra divina feita carne —: encontram em Jesus o Mestre. E agora ficamos vinculados a Ele quando aceitamos a doutrina da Igreja: "Quem a vós ouve, a mim ouve; e quem a vós rejeita, a mim rejeita" [9]. Jesus é, além disso, nosso Redentor. É o Sacerdote, possuidor do único sacerdócio, que se ofereceu a Si mesmo como propiciação pelos pecados. "Cristo não reivindicou para Si a glória de ser Sumo Sacerdote; foi Aquele que Lhe disse: Tu és meu Filho..." [10]. Ao Jesus Sacerdote e Vítima, que honra o Pai e nos santifica, unimo‑nos na medida em que participamos da vida da Igreja; de seus sacramentos em particular, que são como canais divinos por onde flui a graça até alcançar as almas. Cada vez que os recebemos, colocamo‑nos em contato com o próprio Cristo, fonte de toda graça. Através dos sacramentos, os méritos infinitos que Cristo nos mereceu alcançam os homens de todas as épocas e são, para todos, firme esperança de vida eterna. Na Sagrada Eucaristia, que Cristo mandou celebrar à Igreja, renovamos a Sua oblação e imolação: "Este é o meu corpo, que é entregue por vós; fazei isto em memória de mim" [11]; e só a Sagrada Eucaristia nos garante essa Vida que Ele nos ganhou: "se alguém comer deste pão, viverá para sempre, e o pão que Eu lhe darei é a minha carne, vida do mundo..." [12]. A condição para participar desse sacrifício e desse banquete reside em outro dos sacramentos que Cristo conferiu à Sua Igreja, o Batismo: "Ide, pois; ensinai todas as nações, batizando‑as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo" [13]. "Quem crer e for batizado será salvo..." [14]. E se os nossos pecados nos afastaram de Deus, também a Igreja é o meio para restituir nossa condição de membros vivos do Senhor: "A quem perdoardes os pecados" — diz Ele aos seus Apóstolos — "serão-lhes perdoados; e a quem os retiverdes, serão retidos" [15]. Nosso Senhor estabeleceu que essa vinculação profundíssima com Ele se realizasse por meio desses sinais visíveis da vida sacramental da Sua Igreja. Nos sacramentos também encontramos Cristo. E ainda que por vezes surjam dissensões dentro da Igreja, não nos seria difícil encontrar Cristo. Maiorias ou minorias pouco importam quando se trata de encontrar Jesus: no Calvário só estava Sua Mãe com algumas mulheres e um jovem, mas ali, a poucos metros, estava Jesus! Na Igreja também sabemos onde está o Senhor: "Eu te darei" — declarou a Pedro — "as chaves do reino dos céus, e tudo o que ligares na terra será ligado nos céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos céus" [16]. E nem mesmo as negações de Simão foram suficientes para revogar esses poderes. O Senhor, uma vez ressuscitado, confirmou‑os solenemente: "Apascenta os meus cordeiros (...). Apascenta as minhas ovelhas" [17]. A Igreja está onde estão Pedro e os seus sucessores, os bispos em comunhão com ele.

III. Fé, esperança e caridade à Igreja.

Na Igreja vemos Jesus, o mesmo Jesus a quem as multidões queriam tocar porque dele saía uma força que curava a todos. E pertence à Igreja quem, através da sua doutrina, dos seus sacramentos e do seu regime, se vincula a Cristo Mestre, Sacerdote e Rei. Com a Igreja, em certo modo, mantemos as mesmas relações que com o Senhor: fé, esperança e caridade. Em primeiro lugar , que significa crer naquilo que em tantas ocasiões não é evidente. Também os contemporâneos de Jesus viam um homem que trabalhava, se fatigava, precisava de alimento, sentia dor, frio, medo…; mas Aquele Homem era Deus. Na Igreja conhecemos pessoas santas, que muitas vezes passam na obscuridade de uma vida comum, mas vemos também homens fracos, como nós, mesquinhos, preguiçosos, interesseiros… Porém, se foram batizados e permanecem em graça, apesar de todos os defeitos estão em Cristo, participam da mesma vida d’Ele. E, se são pecadores, também a Igreja os acolhe em seu seio, como membros mais necessitados. Nossa atitude perante a Igreja deve ser também de esperança. O próprio Cristo assegurou: Sobre esta pedra edificarei Eu a minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela [18]. Será sempre a rocha firme onde buscar segurança diante dos vaivéns que o mundo vai dando. Ela não falha, porque nela encontramos sempre Cristo. E se a Deus devemos caridade, amor, este deve ser também o nosso sentimento para com nossa Mãe a Igreja, pois «não pode ter a Deus por Pai quem não tem a Igreja por Mãe» [19]. É a mãe que nos comunica a vida: essa vida de Cristo pela qual somos filhos do Pai. E a uma mãe ama-se. Apenas os maus filhos permanecem indiferentes, por vezes hostis, para com quem lhes deu o ser. Nós temos uma boa mãe: por isso nos doem tanto as feridas que lhe provocam os de fora e os de dentro, e as doenças que outros membros podem sofrer. Por isso, como bons filhos, procuramos não expor as misérias humanas —passadas ou presentes— de tais ou quais cristãos, constituídos ou não em autoridade: não da Igreja, que é Santa, e tão misericordiosa que nem aos pecadores nega a sua solicitude maternal. Como falar dela com frieza, com dureza ou com desgosto? Como se pode permanecer «imparcial» diante de uma mãe? Não o somos, nem queremos sê-lo. O que é dela é nosso, e não nos pode ser exigida uma postura de neutralidade, própria de um juiz perante um réu, mas não de um filho em relação à sua mãe. Somos de Cristo quando somos da Igreja: nela nos tornamos membros do seu Corpo, que Nossa Senhora concebeu, gestou e deu à luz. Por isso, Maria Santíssima é «Mãe da Igreja, isto é, Mãe de todo o povo de Deus, tanto dos fiéis como dos pastores» [20]. A última joia que a piedade filial engastou nas letanias de Nossa Senhora, o mais recente elogio à Mãe de Cristo, é apenas um sinônimo: Mãe da Igreja.

Referências citadas

  • 1. Mt 9,20-22.
  • 2. Santo Ambrósio, Comentário ao Evangelho de São Lucas, VI, 56.
  • 3. Atos 9,5.
  • 4. Santo Beda, Comentário aos Atos dos Apóstolos, in loc.
  • 5. 1 Cor 12,27.
  • 6. 1 Cor 1,13.
  • 7. Rm 12,5.
  • 8. Mt 17,5.
  • 9. Lc 10,16.
  • 10. Heb 5,5.
  • 11. Lc 22,19.
  • 12. Lc 6,51.
  • 13. Mt 28,19.
  • 14. Mc 16,16.
  • 15. Jo 20,23.
  • 16. Mt 16,19.
  • 17. Jo 21,15-17.
  • 18. Mt 16,18.
  • 19. Santo Cipriano, Sobre a unidade, 6,8.
  • 20. Paulo VI, Alocução 21-XI-1964.