07/07/2026
LUTA ASCÉTICA
14ª Semana. Terça-feira
I. Muitos combates se travam cada dia no coração do homem. Ajuda constante do Senhor.
A luta misteriosa de Jacó com um anjo em figura de homem às margens do rio Jaboc assinala uma mudança radical na vida do Patriarca. Até então, Jacó havia levado uma conduta demasiado humana, apoiado apenas em meios puramente naturais. A partir deste momento, confiará sobretudo em Deus, que reafirma nele a Aliança com o povo eleito. Pôde Jacó vencer no combate somente pela força que Deus lhe comunicou, e a lição dessa façanha era que não lhe havia de faltar a bênção e a proteção divina nas dificuldades vindouras [1] . Assim o exprime o livro da Sabedoria: “Concedeu-lhe a palma no duro combate para lhe ensinar que a piedade prevalece contra tudo” [2] . Para os Santos Padres, esta cena do Antigo Testamento é imagem do combate espiritual que o cristão deve sustentar diante de forças muito superiores a ele, e contra suas próprias paixões e tendências, inclinadas ao mal após o pecado original: “não é nossa luta contra a carne e o sangue” — adverte São Paulo —, “mas contra os principados, contra as potestades, contra os dominadores deste mundo, contra os espíritos maus dos ares” [3] . São os anjos rebeldes, vencidos já por Cristo, mas que não deixarão de incitar ao mal até o fim da vida do homem. Todos os dias há combates em nosso coração, ensina Santo Agostinho. Cada homem, em sua alma, luta contra um exército. Os inimigos são a soberba, a avareza, a gula, a sensualidade, a preguiça… E é difícil — acrescenta o santo — que esses ataques não nos produzam alguma ferida [4] . No entanto, temos a certeza da vitória se lançarmos mão dos recursos que o Senhor nos deu: a oração, a mortificação, a sinceridade plena na direção espiritual, a ajuda do nosso Anjo da Guarda e, sobretudo, da nossa Mãe Santa Maria. Além disso, “se Aquele que entregou a sua vida por nós é o juiz desta luta, que orgulho e que confiança não teremos? Nos jogos olímpicos, o árbitro permanece no meio dos dois adversários, sem favorecer nem um nem outro, esperando o desfecho. Se o árbitro se coloca entre os dois contendores, é porque sua atitude é neutra. No combate que nos opõe ao diabo, Cristo não permanece indiferente: está inteiramente do nosso lado. Como pode ser isso? Vedes que, logo ao entrar na liça — são palavras de São João Crisóstomo a uns cristãos no dia do seu batismo — Ele nos ungiu, enquanto acorrentava o outro. Ungiu-nos com o óleo da alegria e a ele atou com laços irrompíveis para paralisar seus assaltos. Se eu tropeço, Ele me estende a mão, levanta-me da minha queda e me põe de novo em pé” [5] . Por muitas que sejam as tentações, as dificuldades, as tribulações, Cristo é a nossa segurança. Ele não nos abandona! Ele não é neutro! Está sempre do nosso lado. Todos podemos dizer com São Paulo: Omnia possum in eo qui me confortat… Tudo posso em Cristo que me fortalece, que me dá as ajudas necessárias se recorro a Ele, aos meios que Ele estabeleceu.
II. Para seguir a Cristo é necessário o esforço diário, alegre e humilde.
Caminhava um montanhista em direção a um refúgio de alta montanha. A trilha subia cada vez mais, e em alguns momentos era difícil dar um passo; o frio castigava seu rosto, mas o lugar era impressionante pelo grande silêncio que ali reinava e pela beleza da paisagem. O refúgio, simples e rústico, mostrou-se muito acolhedor. Logo ele observou que, sobre a lareira, estava escrito algo com o qual se identificou plenamente: «Meu lugar está no cume». Ali está também o nosso lugar: no cume, junto a Cristo, num desejo contínuo de aspirar à santidade no lugar onde estamos, apesar de conhecermos bem o barro de que somos feitos, as fraquezas e os retrocessos. Mas sabemos também que o Senhor nos pede o esforço pequeno e diário, a luta sem trégua contra as paixões que tendem a nos puxar para baixo, o não pactuar com os defeitos, com os erros. O que nos fará perseverar neste combate é o amor, o amor profundo a Cristo, a quem buscamos incessantemente [6]. A luta ascética do cristão deve ser positiva, alegre, constante, com «espírito esportivo». «A santidade tem a flexibilidade dos músculos soltos. Quem quer ser santo sabe agir de tal maneira que, enquanto faz algo que o mortifica, omite — se não for ofensa a Deus — outra coisa que também lhe custa, e agradece ao Senhor por essa comodidade. Se os cristãos agíssemos de outro modo, correríamos o risco de nos tornar rígidos, sem vida, como uma boneca de pano. »A santidade não tem a rigidez do papelão: sabe sorrir, ceder, esperar. É vida: vida sobrenatural» [7]. Na luta interior encontraremos também fracassos. Muitos deles terão pouca importância; outros a terão, mas o desagravo e a contrição nos aproximarão mais do Senhor. E se tivéssemos partido em pedaços o que há de mais precioso em nossa vida, Deus saberá recompor tudo, se formos humildes. Ele perdoa e ajuda sempre, quando recorremos a Ele com o coração contrito. Devemos aprender a recomeçar muitas vezes; com uma alegria nova, com uma humildade nova, pois mesmo que se tenha ofendido muito a Deus e causado muito dano ao próximo, pode-se depois estar muito perto do Senhor nesta vida e, em seguida, na outra, se houver verdadeiro arrependimento, se se levar uma vida acompanhada de penitência. Humildade, sinceridade, arrependimento… e recomeçar. Deus conta com nossa fragilidade e perdoa sempre, mas é preciso ser sinceros, arrepender-se, levantar-se. Há uma alegria incomparável no Céu cada vez que recomeçamos. E ao longo de nossa caminhada teremos que fazê-lo em muitas ocasiões, porque sempre haverá faltas, deficiências, fragilidades, pecados. Que nunca nos falte a sinceridade de reconhecê-los e de abrir a alma ao Senhor no Sacrário e na direção espiritual.
III. Recomeçar muitas vezes. Recorrer à Virgem, Nossa Mãe.
A luta diária do cristão se concretizará habitualmente em coisas pequenas: na fortaleza para cumprir delicadamente os atos de piedade com o Senhor, sem abandoná-los por qualquer outra coisa que se nos apresente, sem nos deixarmos levar pelo estado de ânimo daquele dia ou daquele momento; no modo de viver a caridade, corrigindo formas intemperadas do caráter (do mau gênio), esforçando-nos por ter detalhes de cordialidade, de bom humor, de delicadeza para com os outros; em realizar acabadamente o trabalho que oferecemos a Deus, sem atalhos, com perfeição; em empregar os meios para receber a formação de que necessitamos… Vitórias e derrotas, cair e levantar-se, recomeçar sempre…, isto é o que o Senhor pede a todos. Esta luta supõe um amor vigilante, um desejo eficaz de O buscar ao longo do dia. Este esforço alegre é o polo oposto à tibieza, que é desleixo, falta de interesse em buscar a Deus, preguiça e tristeza nas nossas obrigações para com Ele e para com os outros. Neste combate contamos sempre com a ajuda de nossa Mãe Santa Maria, que acompanha passo a passo o nosso caminhar para o seu Filho. Na Liturgia das Horas, a Igreja recomenda todos os dias aos sacerdotes esta Antífona da Virgem: Salve, Mãe soberana do Redentor, Porta do Céu sempre aberta, Estrela do mar; socorre o povo que sucumbe e luta para levantar-se… [8] . Este povo que cai e luta para levantar-se somos todos nós. E esta mudança que se produz cada vez que começamos —ainda que seja em aspectos que parecem de pouca importância: no exame particular, nos conselhos recebidos na direção espiritual, nos propósitos do exame de consciência— é a maior que podemos imaginar. Quanto mais quando se trata de passar da morte do pecado à vida da graça! «A humanidade fez admiráveis descobertas e alcançou resultados prodigiosos no campo da ciência e da técnica, levou a cabo grandes obras no caminho do progresso e da civilização, e em épocas recentes dir-se-ia que conseguiu acelerar o curso da história. Mas a mudança fundamental, mudança que se pode definir “original”, acompanha sempre o caminho do homem e, através dos diversos acontecimentos históricos, acompanha a todos e a cada um. É a mudança entre o “cair” e o “levantar-se”, entre a morte e a vida» [9] . Cada vez que recomeçamos, que nos decidimos a lutar uma vez mais, chega-nos a ajuda de Santa Maria, Medianeira de todas as graças. A Ela devemos recorrer com pleno abandono quando as tentações arreciarem. «Minha Mãe! As mães da terra olham com maior predileção para o filho mais fraco, para o mais doente, para o mais limitado, para o pobre aleijado… — Senhora!, eu sei que Tu és mais Mãe do que todas as mães juntas… — E, como eu sou teu filho… E, como eu sou fraco, e doente… e aleijado… e feio…» [10] .
Referências citadas
- 1. Primeira leitura. Ano I. Gn 32, 22-32.
- 2. Sb 10, 12.
- 3. Ef 6, 12.
- 4. Santo Agostinho, Comentário ao Salmo 99.
- 5. São João Crisóstomo, Catequeses batismais, 3, 9-10.
- 6. Tanquerey, Compêndio de teologia ascética e mística, n. 193 ss.
- 7. São Josemaria Escrivá, Forja, n. 156.
- 8. Liturgia das Horas, Antífona Alma Redemptoris Mater.
- 9. João Paulo II, Enc. Redemptoris Mater, 25-III-1987, 52.
- 10. São Josemaria Escrivá, o. c., n. 234.