10/07/2026
PRUDENTES E SIMPLES
TEMPO COMUM. DÉCIMA QUARTA SEMANA. SEXTA‑FEIRA
I. Jesus, exemplo destas duas virtudes, que se aperfeiçoam mutuamente.
JESUS ENVIA os Doze por todo o país para anunciarem que o Reino de Deus está já muito próximo. E dá‑lhes uns conselhos bem precisos sobre o que devem fazer e dizer, e fala‑lhes das dificuldades que encontrarão. Assim, lemos no Evangelho da Missa: Olhai que eu vos envio como cordeiros entre lobos. Sede pois prudentes como as serpentes e simples como as pombas [1] . Os Apóstolos devem ser cautos para não se deixarem enganar pelo mal, para reconhecerem os lobos disfarçados de cordeiros, para distinguirem os falsos profetas dos verdadeiros [2] , e para não desaproveitarem uma só ocasião de anunciar o Evangelho e de fazer o bem. Mas devem ser ao mesmo tempo simples, porque só quem é simples pode conquistar o coração de todos. Sem simplicidade, a prudência converte‑se facilmente em astúcia . Nós, cristãos, devemos caminhar pelo mundo com essas duas virtudes, que se fortalecem e complementam. A simplicidade implica retidão de intenção e coerência na conduta. A prudência mostra em cada ocasião quais os meios mais adequados para cumprirmos o nosso fim. Santo Agostinho ensina que a prudência “é o amor que discerne o que ajuda a ir para Deus daquilo que o dificulta” [3] . Esta virtude permite‑nos conhecer objetivamente a realidade das coisas, de acordo com o fim último; ajuda‑nos a julgar acertadamente sobre o caminho a seguir e a atuar de modo conseqüente. “Não é prudente – como se julga amiúde – quem sabe ajeitar as coisas na vida e tirar delas o máximo proveito, mas quem consegue edificar a vida inteira de acordo com a voz da consciência reta e com as exigências da moral justa. Deste modo, a prudência torna‑se o ponto chave para que cada um realize a tarefa fundamental que recebeu de Deus. Esta tarefa consiste na perfeição do próprio homem” [4] , na santidade. O Senhor ensinou‑nos com a sua palavra e com o seu exemplo a ser prudentes. Da primeira vez que falou nos átrios do Templo, aos doze anos, todos admiravam‑se da sua prudência [5] . Mais tarde, durante a sua vida pública, as suas palavras e a sua doutrina eram tão claras como prudentes, de tal maneira que os seus inimigos não podiam contradizê‑lo . O Senhor não anda com subterfúgios, mas tem em conta o público a quem fala; por isso, dá a conhecer a sua condição de Messias de modo gradual e vai anunciando a sua morte na Cruz conforme o grau de preparação e conhecimento daqueles que o escutam. Nós devemos aprender de Cristo.
II. Pedir conselho.
PARA SERMOS PRUDENTES , é necessário que tenhamos luz no entendimento; assim poderemos julgar com retidão os acontecimentos e as circunstâncias [6] ; só com uma boa formação doutrinal religiosa e ascética, e com a ajuda da graça, saberemos descobrir os caminhos que conduzem verdadeiramente a Deus, as decisões que devemos tomar… Não obstante, em muitas ocasiões teremos que pedir conselho. “O primeiro passo da prudência é o reconhecimento das nossas limitações: a virtude da humildade. É admitir, em determinadas questões, que não apreendemos tudo, que em muitos casos não podemos abarcar circunstâncias que importa não perder de vista à hora de julgar. Por isso nos socorremos de um conselheiro. Não de qualquer um, mas de quem for idôneo e estiver animado dos nossos mesmos desejos sinceros de amar a Deus e de o seguir fielmente. Não basta pedir um parecer; temos que dirigir‑nos a quem no‑lo possa dar desinteressada e retamente” [7] . São Tomás diz que, ordinariamente, antes de tomarmos decisões que acarretem graves conseqüências para nós ou para os outros, devemos pedir conselho [8] . Mas não devemos pedi‑lo somente nesses casos extremos. Às vezes, torna‑se urgente uma orientação, para os mais velhos e para os jovens, no que se refere à leitura de livros, revistas e jornais, ou à assistência a espetáculos que, umas vezes de forma violenta e outras de maneira solapada, podem arrancar a fé da alma ou criar um fundo mau no coração. Não existe justificativa alguma para não nos afastarmos de uma situação que pode ser o começo do descaminho. Mas há tantas outras circunstâncias em que não chegamos por nós mesmos a um critério seguro ou em que percebemos claramente que “o juízo próprio é mau conselheiro!” [9] É um conflito familiar, que não sabemos como resolver de modo a retornar à paz e ao bom entendimento. É um filho ou uma filha‑problema, que não vemos como encaminhar. É a grave questão da paternidade responsável , que não pode ser resolvida consultando apressadamente o comodismo, o conforto material ou a opinião das vizinhas. É o dilema de saber se determinado gasto mais vultuoso é realmente necessário ou não é ditado pela vaidade, pela ânsia do supérfluo e por tantos outros motivos igualmente fúteis. A virtude da prudência exige nesses casos que saibamos procurar quem nos possa dar um conselho experiente e isento e ajudar‑nos a formar um critério cristão que, seja do inteiro agrado de Deus. E para isso é que é necessária também a virtude da simplicidade, que nos leva a consultar a pessoa certa – não aquela que nos diga o que queremos ouvir –, a expor‑lhe o problema em todos os seus matizes e, sobretudo, a fazer‑lhe caso quando porventura nos sugere uma solução que é contra os nossos interesses imediatos: do orgulho, da ambição ou do comodismo. Só as almas simples sabem ser dóceis aos conselhos recebidos de quem os pode dar com espírito isento. Mas essa simplicidade, tão próxima da humildade, não é difícil de viver para quem se acostuma a reconhecer os seus erros, a retificar as suas opiniões ou a sua conduta quando se engana ou quando aparecem dados novos que mudam os termos de um problema. Sabemos conjugar assim a prudência e a simplidade na nossa vida de todos os dias?
III. A falsa prudência.
NÃO SERIA BOA a prudência que, invocando a necessidade de ponderar os dados, escondesse a covardia de não tomar uma decisão arriscada, de evitar enfrentar um problema. Não é prudente a atitude daquele que se deixa levar pelos respeitos humanos no apostolado e deixa passar as ocasiões, esperando outras melhores que talvez nunca se apresentem. A esta falsa virtude, São Paulo dá o nome de prudência da carne [10] . É a mesma que desejaria mais razões e argumentos para entregar‑se de vez a Deus, com tudo o que é e tem, a mesma que se preocupa excessivamente com o futuro e se serve disso como argumento para não ser generoso no presente; é aquela que sempre encontra alguma razão para não tomar decisões que comprometem totalmente. A prudência não é falta de arrojo para empenhar todas as forças nos empreendimentos de Deus, não é a habilidade de procurar compromissos tíbios ou de justificar com teorias muito razoáveis uma atitude remissa e negligente. Os Apóstolos não agiram assim. Procuraram a cada momento, com as suas fraquezas e às vezes com os seus temores, o caminho de uma mais rápida propagação da doutrina do seu Mestre, ainda que esses caminhos às vezes os conduzissem a tribulações sem conta, e mesmo ao martírio. A vida de seguimento do Senhor compõe‑se de pequenas e grandes loucuras, como acontece com todo o amor verdadeiro. Quando o Senhor nos pede mais – e sempre o pede –, não podemos deter‑nos, paralisados por uma falsa prudência – a prudência do mundo –, pelo juízo daqueles que não se sentem chamados e que vêem tudo com olhos humanos, e às vezes nem sequer humanos, porque têm uma visão exclusivamente terrena e rasteira da vida. Com essa prudência da carne, nenhum homem nem nenhuma mulher se teriam entregado a Deus ou teriam metido ombros a uma tarefa de caráter sobrenatural. Sempre teriam encontrado argumentos e “razões” para dizer que não, ou para adiar a resposta para um tempo mais oportuno, o que muitas vezes vem a dar na mesma. Jesus foi tachado de louco [11] , e a mais elementar cautela lhe teria bastado para escapar da morte. Umas poucas fórmulas lhe teriam sido suficientes para mitigar a sua doutrina e chegar a uma “conciliação de interesses” com os fariseus, para apresentar de outra maneira a sua doutrina sobre a Eucaristia na sinagoga de Cafarnaum [12] , onde muitos o abandonaram; ter‑lhe‑iam bastado umas poucas palavras – a Ele que era a Sabedoria eterna! – para conseguir a liberdade quando estava nas mãos de Pilatos. Jesus não foi prudente segundo o mundo, mas foi mais prudente do que as serpentes, mais do que os homens, mais do que os seus inimigos. Com outro gênero de prudência. Essa deve ser a nossa, ainda que, ao imitá‑lo, os homens nos chamem loucos e imprudentes. A prudência sobrenatural mostra‑nos em todo o momento o caminho mais rápido e direto para chegarmos a Cristo…, acompanhados de muitos amigos, parentes, colegas… “Queres viver a audácia santa, para conseguir que Deus atue através de ti? – Recorre a Maria, e Ela te acompanhará pelo caminho da humildade, de modo que, diante dos impossíveis para a mente humana, saibas responder com um «fiat!» – faça‑se! – que una a terra ao Céu” [13] .
Referências citadas
- 1. Mt 10, 16
- 2. Mt 7, 15
- 3. Santo Agostinho, Dos costumes da Igreja Católica , 25, 46
- 4. João Paulo II, Alocução , 25‑X‑1978
- 5. Lc 2, 47
- 6. cfr. R. Garrigou‑Lagrange, Las tres edades de la vida interior , vol. II, pág. 625 e segs.
- 7. Josemaría Escrivá, Amigos de Deus , n. 86
- 8. São Tomás, Suma Teológica , II‑II, q. 49, a. 3.
- 9. cfr. Josemaría Escrivá, Caminho , n. 59
- 10. cfr. Rom 8, 6
- 11. Mt 3, 21
- 12. cfr. Jo 6, 1 e segs.
- 13. Josemaría Escrivá, Sulco , n. 124.