28/09/2026
O SENTIDO CRISTÃO DA DOR
TEMPO COMUM. VIGÉSIMA SEXTA SEMANA. SEGUNDA-FEIRA
I. As provas e os padecimentos de Jó.
AO LONGO DESTA SEMANA , uma das leituras da Missa [1] transmite-nos os ensinamentos do Livro de Jó , sempre atuais, pois a desgraça e a dor são realidades com as quais deparamos freqüentemente. Vivia na terra de Hus – lemos na Sagrada Escritura – um homem temente a Deus, chamado Jó, que tinha recebido inúmeras bênçãos do Senhor: era rico em rebanhos e produtos da terra; e tinha-lhe sido concedida uma numerosa descendência. Segundo uma concepção generalizada naqueles tempos, havia uma relação entre a vida virtuosa e a vida próspera em bens; o bem-estar material era considerado um prêmio que Deus concedia à virtude e à fidelidade. Num diálogo figurado entre Deus, que se sente contente com o amor do seu servo, e Satanás, este insinua que a virtude de Jó é interesseira e que desapareceria com a destruição das suas riquezas. É a troco de nada que Jó teme a Deus? Não rodeaste de uma sebe protetora a sua pessoa, a sua casa e todos os seus bens? Abençoaste o trabalho das suas mãos e os seus rebanhos têm-se multiplicado por toda a região. Mas estende a tua mão e toca em tudo o que possui; e verás se não te amaldiçoa na tua cara [2] . Com a autorização de Deus, Jó foi despojado de todos os seus bens, mas a sua virtude demonstrou estar profundamente arraigada: Saí nu do ventre de minha mãe, e nu voltarei; o Senhor mo deu, o Senhor mo tirou; bendito seja o nome do Senhor [3] , exclamava no meio da sua pobreza. A sua conformidade com a vontade divina foi total, como o fora na abundância. A sua miséria converteu-se numa enorme riqueza espiritual. Uma segunda prova, muito mais violenta, não pôde debilitar essa fé e confiança em Deus. Desta vez, todo o seu corpo foi atingido por uma úlcera que o cobriu da cabeça aos pés. Perder a saúde é pior do que perder os bens materiais. A fé de Jó, no entanto, manteve-se firme, apesar da doença e dos ataques ferinos de sua mulher: Se recebemos os bens das mãos de Deus, por que não havemos de receber também os males? [4] , respondeu Jó. Hoje pode ser uma boa oportunidade para que examinemos a nossa atitude para com Deus quando a desgraça e a dor se fazem presentes em nós ou naqueles que mais amamos. Deus é sempre Pai, mesmo quando somos atingidos pela aflição e pelos pesares. Sabemos comportar-nos como filhos agradecidos tanto na abundância como na escassez, na saúde como na doença?
II. O sofrimento dos justos.
TRÊS AMIGOS , de tribos e lugares diferentes, ao terem conhecimento da situação de Jó, combinaram ir juntos fazer-lhe companhia e consolá-lo. Quando os três, Elifaz, Bildad e Sofar, puseram os olhos em Jó e o viram num estado tão lamentável, toda a compaixão que tinham desapareceu, convencidos de que se achavam na presença de um homem amaldiçoado por Deus. Partilhavam da crença de que a prosperidade é o prêmio que Deus dá à virtude, e as tribulações o castigo reservado por Ele à iniqüidade. A conduta dos amigos, a persistência dos sofrimentos e a solidão no meio de tanta dor pesaram muito em Jó, que rompeu o seu silêncio numa queixa amarga. Os amigos, convencidos de que havia nele algum pecado oculto, continuaram a tratá-lo duramente, pois não encontravam outra explicação para as suas desgraças. Jó, convencido da sua inocência, admitiu a existência de pequenas transgressões, comuns a todos os homens [5] , mas não a ponto de serem proporcionados ao castigo. Recordou igualmente todo o bem que praticara. Nesse momento nasceu uma grande luta dentro da sua alma. Sabia que Deus é justo, e no entanto tudo parecia falar de injustiça em relação à sua pessoa. Também ele pensava que o Senhor trata o homem conforme os seus méritos e deméritos; como podia então conciliar-se a justiça divina com a sua amarga experiência? Os amigos têm uma resposta, mas ele, em consciência, considera-a falsa. As duas convicções aparentemente contraditórias – a da justiça divina e a da sua própria inocência – causam-lhe uma angústia e um dilaceramento interior mais penoso do que a sua doença física e a sua ruína material [6] . É o desconcerto que produz todo o sofrimento do inocente: o das crianças que morrem prematuramente ou nascem com doenças que as deixarão incapacitadas para uma vida normal, o das pessoas que foram generosas e serviram fielmente a Deus, e que agora se encontram na ruína econômica ou gravemente doentes…, enquanto parece que a vida sorri para certas pessoas que sempre viveram de costas para Deus. O Livro de Jó propõe “o problema do sofrimento do homem inocente com toda a clareza: o do sofrimento sem culpa. Jó não foi castigado; não havia razão para lhe ser infligida uma pena, e não obstante foi submetido a uma prova duríssima” [7] . Depois desta prova, Jó sairá fortalecido na sua virtude, que não dependia da sua situação confortável nem dos benefícios que tinha recebido de Deus. Mas “o Livro de Jó não é a última palavra da Revelação sobre este tema. De certo modo, é um anúncio da Paixão de Cristo” [8] , a única que pode trazer luz ao mistério do sofrimento humano, e de modo especial à dor do inocente. Tanto amou Deus o mundo, que lhe deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna [9] . A dor muda radicamente de sinal com a Paixão de Cristo. “É como se Jó a tivesse pressentido quando disse: Eu sei que o meu Redentor vive, e que no último dia […] verei na minha própria carne o meu Deus (Jó 19, 25); e que para ela tivesse orientado o seu próprio sofrimento, o qual, sem a Redenção, não teria podido revelar-lhe a plenitude do seu significado. Na Cruz de Cristo, não só se realizou a Redenção através do sofrimento, mas também o próprio sofrimento humano foi redimido . Cristo – sem culpa nenhuma própria – tomou sobre si todo o mal do pecado” [10] . Os padecimentos de Jesus foram o preço da nossa salvação [11] . Desde então, a nossa dor pode unir-se à de Cristo e assim participar da Redenção de toda a humanidade. “Esta foi a grande revolução cristã: converter a dor em sofrimento fecundo; fazer, de um mal, um bem. Despojamos o diabo dessa arma…; e, com ela, conquistamos a eternidade” [12] .
III. A dor e a Paixão de Cristo.
A DOR NUNCA PASSA ao nosso lado deixando-nos como antes. Purifica a alma, eleva-a, aumenta o grau de união com a vontade divina, ajuda-nos a desprender-nos dos bens, do excessivo apego à saúde, faz-nos corredentores com Cristo…, ou, pelo contrário, afasta-nos do Senhor e deixa a alma entristecida e entorpecida para as coisas sobrenaturais. Quando Simão Cireneu foi requisitado para ajudar Jesus a carregar a Cruz, submeteu-se a contragosto. Foi forçado [13] , escreve o Evangelista. Nos primeiros momentos, só olhava para a Cruz, e a Cruz era um simples madeiro pesado e incômodo. Depois, desviou a vista do madeiro para o réu, aquele homem totalmente singular que ia ser condenado. E então tudo mudou: ajudou Jesus com amor e mereceu o prêmio da fé para si e para os seus dois filhos, Alexandre e Rufo [14] . Cada um de nós deve também olhar menos para a cruz e mais para Cristo, no meio das suas provas e tribulações. Compreenderemos então que carregar a Cruz tem sentido quando a levamos junto com o Mestre. “O desejo mais ardente do Senhor é acender nos nossos corações essa chama de amor e de sacrifício que abrasa o seu. E por pouco que correspondamos a esse desejo, o nosso coração converter-se-á num foco de amor que consumirá pouco a pouco essas escórias acumuladas pelas nossas culpas e nos transformará em vítimas de expiação, alegres por conseguirmos, à custa de alguns sofrimentos, uma maior pureza, uma união mais estreita com o Amado; alegres também por completarmos a Paixão do Salvador pelo bem da Igreja e das almas (Col 1, 24) […]. Aos pés do Crucificado, compreendemos que, neste mundo, não é possível amar sem sacrifício, mas que o sacrifício é doce para quem ama” [15] . Ao terminarmos a nossa oração, contemplamos Nossa Senhora no alto do Calvário, participando de modo singular dos padecimentos do seu Filho. “Admira a firmeza de Santa Maria: ao pé da Cruz, com a maior dor humana – não há dor como a sua dor –, cheia de fortaleza. – E pede-lhe dessa firmeza, para que saibas também estar junto da Cruz” [16] . Junto dEla, entendemos bem que o “sacrifício é doce para quem ama”, e aprendemos a oferecer através do seu Coração dulcíssimo os fracassos, as incompreensões, as situações difíceis na família ou no trabalho, a doença e a dor… “E uma vez feito o oferecimento, procuremos não pensar mais, mas cumprir o que Deus quer de nós, no lugar onde estivermos: na família, na fábrica, no escritório, na escola… Sobretudo, procuremos amar os outros, o próximo que está ao nosso redor. “Se o fizermos, poderemos experimentar um efeito insólito e insuspeitado: a nossa alma estará cheia de paz, de amor, e também de alegria pura, de luz. Poderemos encontrar em nós uma nova força. Veremos como, abraçando as cruzes de cada dia e unindo-nos por elas a Jesus crucificado e abandonado, poderemos participar já aqui na terra da vida do Ressuscitado. “E, enriquecidos por esta experiência, poderemos ajudar mais eficazmente todos os nossos irmãos a encontrar a bem-aventurança entre as lágrimas, a transformar em serenidade aquilo que os preocupa. Seremos assim instrumentos de alegria para muitas pessoas, de felicidade, dessa felicidade que todo o coração humano ambiciona” [17] .
Referências citadas
- 1. Primeira leitura da Missa da 26ª semana da segunda-feira do Tempo Comum, ano II
- 2. Jó 1, 9-11
- 3. Jó 1, 21
- 4. Jó 2, 10
- 5. cfr. Jó 13, 26; 14, 4
- 6. cfr. B. Orchard, Verbum Dei , Herder, Barcelona, 1960, vol. II, págs. 104 e segs.
- 7. João Paulo II, Carta Apostólica Salvifici doloris , 11.02.84, 11
- 8. ibid.
- 9. Jo 3, 16
- 10. João Paulo II, Carta Apostólica Salvifici doloris , 19
- 11. cfr. 1 Cor 6, 20
- 12. Bem-aventurado Josemaría Escrivá, Sulco , n. 887
- 13. Mt 27, 32
- 14. cfr. Mc 15, 21
- 15. Adolphe Tanquerey, La divinización del sufrimiento , Rialp, Madrid 1955, págs. 203-204
- 16. Bem-aventurado Josemaría Escrivá, Caminho , n. 508
- 17. Chiara Lubich, Palabra que se hace vida , Ciudad Nueva, Madrid, 1990, pág. 39.