Falar com Deus

Meditação Diária

Disponível em português e espanhol.

07/10/2026

NOSSA SENHORA DO ROSÁRIO

Memória

7 DE OUTUBRO

I. O Rosário, arma poderosa .

E, ENTRANDO O ANJO onde ela estava, disse-lhe: Salve, cheia de graça, o Senhor é contigo [1] . Com estas palavras, o anjo saudou Nossa Senhora, e nós as vimos repetindo incontáveis vezes em tons e circunstâncias muito diferentes. Na Idade Média, saudava-se a Virgem Maria com o título de rosa ( Rosa mystica ), símbolo de alegria. Adornavam-se as suas imagens – como agora – com uma coroa ou ramo de rosas (em latim medieval Rosarium ), como expressão dos louvores que brotavam dos corações cheios de amor. E os que não podiam recitar os cento e cinqüenta salmos do ofício divino substituíam-no por outras tantas Ave-Marias, servindo-se para contá-las de uns grãos enfiados por dezenas ou de nós feitos numa corda. Ao mesmo tempo, meditava-se a vida da Virgem e do Senhor. A Ave-Maria , recitada desde sempre na Igreja e recomendada freqüentemente pelos Papas e Concílios, tinha inicialmente uma forma breve; mais tarde, adquiriu a sua feição definitiva quando lhe foi acrescentada a petição por uma boa morte: rogai por nós, pecadores, agora e na hora da nossa morte ; em cada situação, agora , e no momento supremo de nos encontrarmos com o Senhor. Estruturaram-se também os mistérios, o argumento de cada dezena, contemplando-se assim os acontecimentos centrais da vida de Jesus e de Maria, como um compêndio do ano litúrgico e de todo o Evangelho. Também se fixou a recitação da Ladainha: um cântico cheio de amor, de louvores a Nossa Senhora e de súplicas, de manifestações de júbilo e de alegria. São Pio V atribuiu a vitória de Lepanto – obtida no dia [7] de outubro de 1571 e com a qual desapareceram graves ameaças à fé dos cristãos – à intercessão da Santíssima Virgem, invocada em Roma e em todo o orbe cristão através do Santo Rosário. Por esse motivo, foi acrescentada à ladainha a invocação Auxilium christianorum . Desde então, esta devoção à Virgem foi constantemente recomendada pelos Sumos Pontífices como “oração pública e universal pelas necessidades ordinárias e extraordinárias da Igreja santa, das nações e do mundo inteiro” 2 . Neste mês de outubro, que a Igreja dedica a honrar a nossa Mãe do Céu especialmente através do rosário, devemos verificar com que amor o rezamos, como contemplamos cada um dos seus mistérios, se oferecemos cada dezena por intenções cheias de santa ambição, como aqueles cristãos que, com a sua oração, alcançaram da Virgem uma vitória tão decisiva para toda a cristandade. Perante as dificuldades que experimentamos, perante a ajuda tão grande de que precisamos no apostolado, para levarmos adiante a família e aproximá-la mais de Deus, nas batalhas da vida interior, não podemos esquecer que “como em outros tempos, o Rosário há de ser hoje arma poderosa para vencermos na luta interior e para ajudarmos todas as almas” 3 .

II. Contemplar os mistérios do Rosário.

O NOME ROSÁRIO provém do conjunto de orações, à maneira de rosas, que dedicamos à Virgem [4] . Também como rosas foram os dias da Virgem: “Rosas brancas e rosas vermelhas; brancas de serenidade e pureza, vermelhas de sofrimento e amor. São Bernardo diz que a própria Virgem foi uma rosa de neve e sangue. Já tentamos alguma vez desfiar as contas da sua vida, dia a dia, por entre os dedos das nossas mãos?” [5] É o que fazemos ao contemplarmos as cenas – mistérios – da vida de Jesus e de Maria que se intercalam a cada dez Ave-Marias. Nas cenas do Rosário, divididas em três grupos, percorremos os diversos aspectos dos grandes mistérios da salvação: o da Encarnação, o da Redenção e o da vida eterna [6] . Nesses mistérios, de uma forma ou de outra, temos sempre presente a Virgem. Não se trata apenas de repetir monotonamente as Ave-Marias a Nossa Senhora, mas de contemplar também os mistérios que se consideram em cada dezena. A meditação desses mistérios causa um grande bem à nossa alma, pois vai-nos identificando com os sentimentos de Cristo e permite-nos viver num clima de intensa piedade: alegramo-nos com Cristo gozoso, sofremos com Cristo paciente, vivemos antecipadamente na esperança, na glória de Cristo glorificado [7] . Para realizarmos melhor essa contemplação dos mistérios, pode ser-nos útil seguir este conselho prático: “Demora-te por uns segundos – três ou quatro – num silêncio de meditação, considerando o respectivo mistério do Rosário, antes de recitares o Pai-Nosso e as Ave-Marias de cada dezena” [8] . É aproximarmo-nos da cena como um personagem mais, imaginar os sentimentos de Cristo, de Maria, de José… Desse modo, procurando com simplicidade “assomar” à cena que se propõe em cada mistério, o Rosário “é uma conversa com Maria que nos conduz igualmente à intimidade com o seu Filho” [9] . Familiarizamo-nos no meio dos nossos assuntos quotidianos com as verdades da nossa fé, e essa contemplação – que pode ser feita mesmo no meio da rua, do trabalho –, ajuda-nos a estar mais alegres, a comportar-nos melhor com as pessoas que se relacionam conosco. A vida de Jesus, por meio da Virgem, torna-se vida também em nós, e aprendemos a amar mais a nossa Mãe do Céu. Quanta verdade nestes versos do poeta: “Tu que achas esta devoção / monótona e cansada, e não rezas / porque sempre repetes os mesmos sons…, / tu não entendes de amores e tristezas: / que pobre se cansou de pedir dons, / que enamorado de dizer coisas ternas?” [10]

III. A ladainha lauretana.

DEPOIS DE CONTEMPLARMOS os mistérios da vida de Jesus e de Nossa Senhora com o Pai-Nosso e a Ave-Maria, terminamos o Rosário com a ladainha lauretana e algumas petições que variam conforme as regiões, as famílias ou a piedade pessoal. A origem das ladainhas remonta aos primeiros séculos do cristianismo. Eram orações breves, dialogadas entre os ministros do culto e o povo fiel, e tinham um especial caráter de invocação à misericórdia divina. Rezavam-se durante a Missa e, mais especialmente, nas procissões. A princípio, dirigiam-se ao Senhor, mas em breve surgiram também as invocações à Virgem e aos santos. As primícias das ladainhas marianas são os elogios cheios de amor dos cristãos à sua Mãe do Céu e as expressões de admiração dos Santos Padres, especialmente no Oriente. A Ladainha que se reza atualmente no Rosário começou a ser cantada solenemente no Santuário de Loreto (de onde procede o nome de ladainha lauretana ) por volta do ano 1500, mas baseia-se numa tradição antiqüíssima. Desse lugar espalhou-se por toda a Igreja. Cada invocação é uma jaculatória cheia de amor que dirigimos à Virgem e que nos mostra um aspecto da riqueza da alma de Maria. Agrupam-se em torno das principais verdades marianas: a maternidade divina de Maria, a sua virgindade perpétua, a sua mediação, a sua realeza universal e a sua exemplaridade como caminho para todos os seus filhos. Assim, ao invocá-la como Santa Mãe de Deus , professamos expressamente a sua maternidade; quando a louvamos como Virgem das virgens , reconhecemos a sua virgindade perpétua; quando a invocamos como Mãe de Cristo , professamos a sua íntima união com o verdadeiro Mediador e Rei, e reconhecemo-la, portanto, como Rainha e medianeira… A Virgem é Mãe de Deus e Mãe nossa, e é esse o título supremo com que a honramos e o fundamento de todos os outros. Por ser Mãe de Cristo, Mãe do Criador e do Salvador , também o é da Igreja e da divina graça , é Mãe puríssima e castíssima, intacta, amável, imaculada, admirável . E pelo privilégio da sua virgindade perpétua, é Virgem prudentíssima, veneranda, digna de louvor, poderosa, clemente, fiel… A Mãe de Deus é além disso, Medianeira em Cristo [11] entre Deus e os homens, e por isso invocamo-la sob três belíssimos símbolos e outros aspectos da sua mediação universal: Ela é a nova Arca da Aliança , a Porta do Céu através da qual chegamos a Deus, e a Estrela da manhã , que nos permite sempre orientar-nos em qualquer momento da vida; é Saúde dos enfermos, Refúgio dos pecadores , Consoladora dos aflitos, Auxílio dos cristãos… Maria é Rainha de todas as coisas criadas, dos céus e da terra, porque é Mãe do Rei do universo. A universalidade do seu reinado começa pelos anjos e continua depois pelos santos (pelos do céu e pelos que na terra buscam a santidade): Ela é Rainha dos anjos, dos patriarcas, dos profetas, dos apóstolos, dos mártires, dos confessores (dos que confessam a fé), das virgens, de todos os santos . E a seguir recordamos quatro outros títulos da sua realeza: Maria é Rainha concebida sem pecado, assunta aos céus, do Santíssimo Rosário e da paz . Depois de invocá-la como exemplo perfeito de todas as virtudes, aclamamo-la enfim com estes símbolos e figuras de admirável exemplaridade: Espelho da justiça, Sede da sabedoria, Causa da nossa alegria, Vaso espiritual, Vaso honorável, Vaso insigne de devoção, Rosa mística, Torre de Davi, Torre de marfim e Casa de ouro . Ao determo-nos devagar em cada uma destas invocações, podemos maravilhar-nos com a riqueza espiritual, quase infinita, com que Deus ornou a sua Mãe. Causa-nos uma imensa alegria ter como Mãe a Mãe de Deus, e assim lho dizemos muitas vezes ao longo do dia. Cada uma das invocações da Ladainha pode servir-nos como jaculatória para lhe manifestarmos quanto a amamos, quanto precisamos dEla.

Referências citadas

  • 1. Lc 1, 28
  • 2. João XXIII, Cart. Apost. Il religioso convegno , 29-IX-1961
  • 3. Josemaría Escrivá, Santo Rosário , pág. 7
  • 4. cfr. J. Corominas, Diccionário crítico etimológico castellano e hispánico , Gredos, Madrid, 1987, verbete Rosa
  • 5. J. M. Escartin, Meditación del Rosario , Palabra, Madrid, 1971, pág. 27
  • 6. cfr. R. Garrigou-Lagrange, La Madre del Salvador , Rialp, Madrid, 1976, pág. 350
  • 7. cfr. Paulo VI, Exort. Apost. Marialis cultus , 2-II-1974, 46
  • 8. Josemaría Escrivá, op. cit. , pág. 15
  • 9. R. Garrigou-Lagrange, op. cit. , pág. 353
  • 10. cit. por A. Royo-Marín, La Virgen Maria , BAC, Madrid, 1968, págs. 470-471
  • 11. cfr. João Paulo II, Enc. Redemptoris Mater , 25-III-1987, n. 38.